Sustentável e saboroso, cacau da Amazônia está se tornando “o ouro negro” da floresta

A uma hora de barco de Belém, Manoel do Carmo Monteiro da Silva observa a vegetação de Barcarena enquanto dirige a “rabeta” – pequena embarcação típica da região – até a sua comunidade, em Bom Jardim. “Aqui, temos uma concentração de cacau nativo. Mas por falta de conhecimento e pelo preço do transporte, a cultura do cacau está se perdendo para dar lugar ao açaí”, lamenta o ribeirinho. “Mas eu vejo isso de outra forma!”, comemora.

Manoel, mais conhecido como Xiba, tem até mesmo uma barra de chocolate com seu apelido: com 81% de concentração de cacau, a “Xiba” ganhou destaque no Salão do Chocolate, em Paris, a maior feira do setor na França. “Os críticos perceberam um sabor de rosa no meu cacau, de origem muito humilde, e aí eu soube que estava fazendo um produto de grande qualidade”, diz, sem esconder seu orgulho. 

Caminhar na floresta com Xiba é uma aula de botânica e ornitologia. Da andiroba até o canto do uirapuru, o local não apresenta quase nenhum segredo para ele.

Cacau fino

Xiba aprendeu a cultivar o cacau com o pai, mas não para produzir chocolate e sim para consumir a polpa da fruta ou vender sua semente. Foi com chocolatier da Amazônia Cesar de Mendes que o ribeirinho começou a fazer cacau fino, com fermentação e secagem das sementes. Hoje, ele consegue obter 500 kg da fruta a cada safra – uma em janeiro e outra em junho. 

No entanto, a cada ano, Xiba tem a impressão que a produção diminui. “Na época do meu pai, a terra dava muito cacau, era uma árvore em cima da outra. Esse ano já vou perder 30% em comparação com o ano passado.”

Ele conta que recebeu muitas propostas para a venda da madeira da floresta onde mora, mas sempre se recusou a vendê-la. “É para o futuro. Os filhos dos meus filhos devem conhecer essas árvores, então tento preservar”, argumenta.

Graças ao conhecimento sobre a fermentação e secagem do cacau, o produto ganhou um valor extra. “Barcarena é um lugar muito interessante”, explica o chocolatier Cesar De Mendes, no seu sítio, em Santa Bárbara, onde cultiva vários tipos de frutas, da banana ao cacau. “É um solo argiloso e inundável, onde cresce o cacau nativo chamado ‘Maranhão’. Nos anos 1640, foi o primeiro cacau a ser exportado para Europa”, conta.

Chocolate que conta histórias

Segundo o ex-engenheiro químico, agora chocolatier reconhecido, as particularidades do território onde cresce o cacau se sentem no paladar de quem o experimenta. As notas cítricas, amadeiradas, doces, dependem de vários fatores: as características do solo, a variedade da fruta, a incidência da luz, a disponibilidade de água, mas também do “equilíbrio microbiano” que fermenta o cacau. “Fora do Brasil, no mundo, tem em média 78 micro-organismos que fermentam o cacau. Na Amazônia, são 150!”, detalha.

De Mendes é um dos chocolatiers pioneiros na Amazônia, integrante do movimento “tree to bar“, da semente à barra. Os tabletes de chocolate que ele vende contém poucos ingredientes: o cacau das comunidades com quem trabalha, a manteiga da própria fruta e rapadura orgânica. 

Na embalagem de cada barra estão as coordenadas geográficas do local de origem do cacau, além da história dos produtores. “Eles são os protagonistas, não a gente”, salienta De Mendes. “Para mim, esse chocolate é uma ferramenta para mostrar que pode ser viável manter essa floresta em pé, que podemos fazer comércio sem desmatar, preservando a cultura dos povos tradicionais”, defende. 

Através do seu chocolate, De Mendes também garante uma renda digna para as comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas com quem trabalha. Na cadeia do cacau, os produtores ganham geralmente 7% da renda do produto final, e o comércio fica com 43%. De Mendes tenta pagar aos produtores pelo menos o dobro do preço do mercado. 

Em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) ele conta que produziu chocolate junto com a comunidade indígena Yanomami, que vende 50 gramas por R$ 50. A renda inteira volta para a comunidade. “Uma forma de ajudar”, segundo o chocolatier.

Filhas do Combu

Ainda é raro encontrar produtores de cacau que sabem fazer o próprio chocolate. Izete dos Santos Costa é uma dessas pessoas apaixonadas por essa arte. Popularmente conhecida como Dona Nena, a ribeirinha mora na ilha do Combu, na frente de Belém. Ela criou a sua própria marca de chocolate, “Filhas do Combu”, que produz com outras mulheres da família. 

Mas antes de conseguir realizar esse sonho, encontrou muitas dificuldades. “Primeiro, fui vista como doida. Nem a minha família acreditava em mim. Ainda hoje, eu sinto essa dificuldade, porque infelizmente o machismo impera. Como mulher, é muito difícil dirigir homens, porque eles não aceitam receber ordens de uma mulher”, afirma Dona Nena. 

A empresária olha com desconfiança as embarcações que passam a toda velocidade em frente à sua casa. Aos finais de semana, barcos de turistas com música alta e jet-skis circulam o tempo inteiro pela região. 

“Esse turismo selvagem é muito preocupante. Além de ameaçar a fauna, degrada a flora e as beiras dos rios. A erosão está chegando às nossas casas, e já tivemos que mudar o nosso modo de vida: as crianças não brincam mais de ‘casquinha’ – brincadeira em uma canoa pequena -, e não conseguimos mais pescar camarões”, revela.

Nos finais de semana, a ribeirinha também organiza visitas guiadas em seu ateliê de chocolate, com degustação e explicação sobre a cultura e a história do cacau da Amazônia. Trazendo os visitantes para a sua casa, a empresária tenta incentivar um turismo mais sustentável. 

Para ela, explicar como é feito o chocolate faz parte de “uma luta para que as pessoas tomem consciência sobre o que é um bom chocolate”. Para combater o turismo selvagem que está cada vez mais prejudicando a ilha, Dona Nena também criou uma associação com outros moradores. “A gente combate isso, mas infelizmente avançamos bem devagar”, lamenta. 

A CASTANHA SUSTENTÁVEL BRASILEIRA DA LABRAFLORA QUE ESTÁ CONQUISTANDO – E CURANDO, O CORAÇÃO DO MUNDO

O Cerrado, também conhecido como savana brasileira, localizado no Planalto Central, é o segundo bioma do país em área, apenas superado pela Floresta Amazônica. Apresenta rica biodiversidade com grande número de espécies vegetais, e os estudos envolvendo estas espécies é de suma importância para divulgar conhecimento sobre as características nutricionais, incentivar o consumo , o manejo sustentável e o cultivo econômico, contribuindo para a preservação deste bioma, desde que haja o aproveitamento industrial alinhado a projetos envolvendo biodiversidade para alimentação e nutrição.

Uma espécie nativa do cerrado que vem se destacando como alimento é o do baru, leguminosa arbórea lenhosa, conhecida até pouco tempo para aproveitamento como madeira e a partir dos estudos em universidades, órgãos de pesquisas e organizações ambientalistas, o conhecimento do valor nutricional e funcional do baru tem chegado à população, valorizando seu potencial tecnológico e econômico.

O baruzeiro apresenta intensa frutificação, cerca de 2.000 a 6.000 frutos por planta, a colheita é realizada entre setembro e outubro, época mais seca da região. Produz frutos com epicarpo fino, de aspecto macio e quebradiço, com mesocarpo espesso, farináceo e de consistência macia constituindo a polpa que envolve um endocarpo lenhoso contendo uma única semente oleaginosa comestível, denominada castanha de baru, sendo esta a parte mais valorizada e comercializada. O baru é consumido pela população local e hoje já é industrializado em pequenas empresas ou cooperativas, com perspectivas de rápido crescimento inclusive para exportação. As castanhas podem ser utilizadas em substituição a outras castanhas em preparações culinárias ou produtos industrializados como paçocas, biscoitos, barras de cereais, bolos, chocolates, aperitivos, molhos, farinhas, óleos entre outros. Existe interesse tecnológico sobre as potencialidades do baru, não só da semente, mas também da polpa e do endocarpo. A semente do baru representa 5% do rendimento do fruto inteiro e a polpa 30%, assim já são fabricados produtos alimentícios da casca e polpa de baru desidratada em forma de chips ou farinha e o endocarpo lenhoso, resíduo da industrialização, pode ser aproveitado para fabricação de carvão ou como forração de jardins.

Baru como super alimento –  seu aspecto nutricional

Os valores nutricionais de frutos do cerrado são informações importantes para aplicação tecnológica, avaliação do consumo e formulação de novos produtos, promovendo o consumo e consequentemente conscientização sobre a preservação de espécies economicamente aproveitáveis.

Como a maioria das oleaginosas, a castanha de baru apresenta quantidades consideráveis de lipídios e proteínas, e em decorrência disso, constituem boas fontes energéticas, porém o seu maior destaque são as vantagens dos compostos funcionais que incluem ácidos graxos poli-insaturados, fibras e fitoquímicos que, além da nutrição básica, trazem benefícios à saúde, à capacidade física e ao estado mental, prevenindo doenças.

A castanha de baru apresenta em média de 26% de proteínas, valor maior do que o amendoim, castanha de caju e castanha do Pará, e fornece todos os aminoácidos essenciais. Além dos aminoácidos essenciais, destaca-se o conteúdo de glutamina da amêndoa de baru, aminoácido responsável pela manutenção do equilíbrio ácido-base, regulação da síntese e degradação proteica, melhora da imunidade, da absorção intestinal, indispensável para recuperação de indivíduos desnutridos, em pós-operatório e utilizado em dietas parenterais. A castanha de baru é uma ótima opção de grupos específicos, como os vegetarianos que precisam ingerir fontes proteicas de origem vegetal de melhor qualidade.

Quanto aos lipídeos a porcentagem é em torno de 38 % , valor abaixo do amendoim e das castanhas de caju e do Pará, sendo importante para dietas hipocalóricas. Outra vantagem nutricional da castanha de baru é que apresenta proporção de ácidos graxos essenciais que contribui para prevenção de doenças cardiovasculares.

Carboidratos

O conteúdo de carboidratos da castanha de baru é em torno de 12%, apresentando baixo índice glicêmico, auxiliando no controle das taxas de glicemia, evitando os picos de insulina e ajudando no controle do peso.

Fibras

Outro destaque da castanha do baru é o alto teor de fibra alimentar, 14%, valor que representa de 2 a 3 vezes o teor do amendoim e das castanhas brasileiras de caju e Pará. As fibras são compostos considerados funcionais por prevenirem doenças cardiovasculares, reduzirem nível de colesterol sanguíneo e o risco de desenvolvimento de alguns tipos de cânceres, principalmente do intestino. A castanha de baru possui alto teor de minerais, possui mais cálcio do que o leite e mais ferro do que a carne.

Uma porção de 100 gramas equivale a 59% da ingestão diária recomendada de ferro, sendo importante para combate à anemia. Também é fonte de potássio, fósforo, magnésio e zinco. É importante ressaltar o alto teor de potássio e a reduzida concentração de sódio o que pode favorecer o controle hidroeletrolítico e da pressão arterial.

O zinco é um mineral que ajuda na imunidade e no controle de diversas doenças e importante para a fertilidade feminina e masculina, 100g de castanha fornecem 47% da quantidade de zinco recomendada por dia. A amêndoa de baru apresenta maiores teores de compostos fenólicos totais comparativamente ao amendoim, avelãs, castanha-do-brasil, castanha de caju, pinhões e macadâmias.

O consumo de alimentos antioxidantes e ricos em fitoquímicos está relacionado à redução do risco de doenças crônicas e degenerativas como doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson e alguns tipos de câncer.

O óleo de Baru

O óleo extraído da castanha é fonte também de potente antioxidante e preventivo na formação de trombos. Os ácidos graxos da família ômega, quando consumidos nas dosagens recomendadas, são importantes na prevenção da hipertensão e na redução do colesterol total e LDL (colesterol ruim), regularizam os níveis de glicose no sangue, reduzem a gordura abdominal e a incidência de câncer, além de ajudarem na cicatrização e na diminuição da queda de cabelo.

Saiba mais: https://www.onews.com.br/politica-e-economia/baru-a-castanha-sustentavel-brasileira-da-labraflora-que-esta-conquistando-e-curando-o-coracao-do-mundo/

Fonte: O.news

ABNC Nuts realizará 1º Encontro do Polo Sul-Americano da Noz-Pecã

Argentina, Brasil e Uruguai já são importantes produtores de noz-pecã, tendo grande potencial produtivo. Com o objetivo de integrar as pesquisas nesse novo polo, estaremos realizando o primeiro encontro das entidades de pesquisa, onde serão abordados aspectos da atual situação da noz-pecã em cada país, quais os desafios, onde podemos e queremos chegar e, especialmente, como atingir esses objetivos de crescimento trabalhando, pesquisando e gerando tecnologia como um bloco produtivo.

Contamos com sua presença!

É dia 27/10, das 10h às 12h.

Para acompanhar o evento gratuitamente, acesse o link http://b.link/c65dj

ABNC Nuts realiza IX Encontro Brasileiro de Nozes e Castanhas

Produtos naturais e saudáveis cada dia ganham mais espaço nas refeições dos consumidores, e as nozes e castanhas são a bola da vez nesse mercado. Por isso, a ABNC Nuts traz para o IX Encontro Brasileiros de Nozes e Castanhas palestras sobre a evolução das nozes e castanhas no Brasil e no mundo e a importância de uma alimentação adequada em uma realidade pós pandemia.

21 de setembro de 2020 | das 10h às 12h

MEDIAÇÃO

José Eduardo Mendes Camargo

Presidente da ABNC, Vice-Presidente do CIESP e Diretor do DEAGRO-FIESP

PALESTRAS

Inovando em produtos e mercados

Richard Waycott

CEO e Presidente da Almond Board of California

Nozes como fonte de saúde – Pesquisa no Mundo

Profº Jordi Salas

Professor Emérito de Nutrição da Espanha, que coordena as pesquisas mundiais no setor de Nozes

Impulsionando o Mercado Asiático

Profº Marcos Jank

INSPER – São Paulo e Ex- BRF em Singapura

CASTANHA-DO-BRASIL CULTIVADA E O MEIO AMBIENTE

Ao lado do extrativismo tradicional de castanha-do-Brasil, há 40 anos, soma-se a atividade de cultivo das castanheiras (Bertholletia excelsa HBK), o qual contribui positivamente para o meio-ambiente ao propiciar a recuperação de áreas degradadas no bioma da Floresta Amazônica brasileira. Com esse cultivo, baseado em técnicas desenvolvidas pela Embrapa e testado em larga escala no Estado do Amazonas, é possível colaborar para tirar a espécie do risco de extinção, valorizar a floresta em pé e contribuir para o sequestro de carbono da atmosfera. Além disso, o cultivo de castanheiras pode ser estendido à desafiadora recuperação de áreas desmatadas por pequenos produtores que vivem na floresta, proporcionando-lhes a oportunidade de plantar, concomitantemente às suas roças, uma espécie florestal adequada e que perdura ao longo do tem po.

Alimentação no centro do combate ao Covid-19.

Não é segredo que a manutenção de uma alimentação saudável e equilibrada é fator essencial para a manutenção de boa condição de saúde, para a ampliação da imunidade e para a prevenção de inúmeras doenças. O mesmo raciocínio, que vale para o câncer, a diabetes, a obesidade, e para diversas doenças cardiovasculares, apenas para citar algumas, também se aplica ao novo coronavírus, ou Covid-19.

Um estudo publicado recentemente pelo EAT-Lancet, liderado cientistas dos campos da saúde, nutrição, agricultura e meio ambiente, destaca a importância das nozes e castanhas para a ampliação da imunidade, destacando-os como substâncias fundamentais para a manutenção da saúde. E esses benefícios devem ser considerados pela população em geral especialmente agora, no contexto da pandemia provocada pelo Covid-19.

Ricos em Zinco e proteínas vegetais, as castanhas e as nozes auxiliam no desenvolvimento e na diferenciação das células do sistema imunológico e anticorpos, desempenhando um papel fundamental para que o organismo possa se proteger de diversas doenças, mantendo-se ou sendo menos agredido por organismos estranhos e prejudiciais.

De acordo com o estudo do EAT-Lancet, elaborada com vistas a sugerir caminhos para que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU fossem possíveis, é necessário estimular a redução em mais de 50% de alimentos não saudáveis – incluindo carne vermelha, adoçantes artificiais e grãos refinados -e ampliando em mais que o dobro o consumo de alimentos saudáveis – a exemplo de nozes, castanhas, frutas, vegetais e legumes, o que exigirá mudanças dos padrões atuais de produção de alimentos.

Além de favorecer a saúde da população mundial num momento muito delicado, a ampliação do consumo de nozes e castanhas favorece um setor importante do agronegócio brasileiro, de um segmento extremamente representativo para a geração e recuperação da economia. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, em 2017 o setor representou mais de 44% do PIB brasileiro.

O Brasil tem, capacidade e potencial para se tornar um dos principais produtores do mundo de nozes e castanhas, uma cultura relevante, distribuidora de rendas, bastante versátil e representativa de benefícios à saúde e ao meio ambiente. Estimular o consumo de castanhas e nozes é fator crucial para a manutenção da saúde física e econômica não apenas da nação brasileira, mas de todo o mundo.

José Eduardo Mendes de Camargo, é presidente da Associação Brasileira de Nozes e Castanhas (ABNC) e diretor do Departamento de Agronegócios da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).